quinta-feira, junho 21, 2007

 

polka dots

descoseu-se o forro do saco das bolinhas que transporta diariamente a minha vida e que não consigo esvaziar nem pelo tempo que seria necessário para o arranjar e seguir em frente. descoseu-se o forro do saco sem bolinhas que transporta diariamente as coisas que não digo e guardo e escondo e acumulo e que não consigo esvaziar nem pelo tempo que seria necessário para arranjar e seguir em frente. descoseu-se o meu forro. e agora caem lá para dentro os mais estranhos objectos. telefones, canetas, isqueiros, amores, desamores, meia carta de um baralho que não sei quem baralhou, um seis de copas rasgado que me fez tropeçar no caminho desta manhã e que, de rasgado, perdeu coração-e-meio, ficaram os outros quatro juntos-sozinhos a olhar para aquela metade que está a sangrar e que não posso emendar como poderia o forro descosido do saco. o forro só precisa de linha e agulha, o seis de copas precisa da outra metade porque é carta de um baralho que não sei quem baralhou.
Comments:
Os corações rasgados têm a beleza de estarem vivos. Não são de pedra, nem são completos com um vermelho verniz de museu. São tão reais como a carta inacabada, o saco descosido, as pessoas. Acredito na solidariadade dos outros corações da carta,acredito no esvaziar, no remendar, no voltar a encher.
 
é um seis de copas...
 
ahahah, o meu coração traíu-me. eu no fundo não queria que fosse um 6 de copas. obrigada caracol, está corrigido, já voltou à sua essência, esta carta fora do baralho.
 
os coracoes sao orgaos que bombeiam sangue ao resto do corpo. tu és uma mulher das ciencias devias saber isso melhor que eu, nao se rasgam nem partem, volta e meia param e às vezes de vez, mas se assim for, duvido que o resto do corpo tenha forcas para se preocupar.
 
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