terça-feira, agosto 23, 2005

 

se quem conta um conto lhe acrescenta um boato desnecessário, quem magica um conto de raiz...

a desculpa da calma da aldeia não pega no bulício da cidade. a preocupação com a vida alheia é e será sempre uma distracção da vida própria. haverá sempre e em toda a parte pessoas (e vidas) poucochinhas que precisam dos outros para se justificarem a si mesmas. não vão elas, as pessoas poucochinhas, perceber de repente que não são exactamente o que queriam ser ou que não suspeitam sequer o que querem ser. ou que não são(!) com a plenitude do verbo ser. não vão elas, as pessoas poucochinhas, perceber de repente que não sabem no fundo responder ao quem és? e para onde vais? do seu próprio destino.

as pessoas poucochinhas têm vidinhas. e não contentes com isso, as pessoas poucochinhas querem que os outros tenham vidas poucochinhas, como as delas.

as pessoas poucochinhas ralam-se com pouco. preocupam-se sempre que surge oportunidade para depois se poderem preocupar mais ainda com a sua própria ralação.

as pessoas poucochinhas nunca aprendem a confiar. as pessoas poucochinhas têm ciúmes. as pessoas poucochinhas massacram com perguntas à procura do que não existe.

as pessoas poucochinhas vêem coisas onde elas não existem. asseguram-se assim de ter sempre qualquer coisa para ver, mesmo que não esteja lá nada.

é preciso ser-se muito poucochinho para se acreditar mais nas lucubrações oníricas das quentes noites de verão em que a imaginação se apodera da razão - que já de si é poucochinha - do que nas palavras de alguém que se ama. é preciso ser-se muito poucochinho para se perder tanto por tão pouco. por tão poucochinho.
Comments:
Autch!
 
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