terça-feira, julho 19, 2005
(todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas.)*
é um cliché dizer-se que se abre um livro de que se gosta muito ao calhas para se ler uma passagem de vez em quando. há muito quem diga que o faz com a bíblia em busca do caminho, o que quer que isso seja. eu faço-o muito com a poesia, embora por vezes também faça sentido lê-la de um trago só. esta é uma história diferente. mas parecida.
ontem encontrei um caderno. na realidade não o encontrei porque não estava perdido. eu sabia bem onde estava mas evitava abri-lo há muito, muito tempo. sabia o que lá ia encontrar. na primeira página está, sozinho, sem mais que se lhe sigam, o poema que já ali deixo em baixo. as outras páginas não ficaram em branco porque o papel é lilás. as outras páginas ficaram em lilás. depois deste poema nunca lá escrevi mais nenhum. nem mais nada. nunca soube explicar(-me) porquê.
além do poema escrito no caderno lilás descobri, escondida entre as páginas mais para a frente - e isso sim foi reencontro -, uma carta. que eu própria escrevi e enviei. uma carta de amor, manuscrita, como já não se usa. o papel não é perfumado (caramba, estupidamente romântica mas não pirosa) mas esta também não é a original (e pronto, admito que já perfumei papel em tempos). esta é uma cópia. copiei, à mão, uma carta de amor. penso que nunca o tinha feito e desde então certamente não o fiz porque não escrevi mais cartas de amor. com toda a certeza que a situação na altura exigiu o duplicado. talvez tenha sido um rascunho. talvez tenha sido a necessidade de a ter comigo para reler. para me lembrar do que senti para sempre. como se para sempre coubesse para sempre num pedaço de papel. quando a escrevi não sabia que era uma carta de amor mas quando a reli ontem, na luz fraca que tenho à cabeceira da cama, percebi tudo. outra vez. esta é uma carta para reler muitas vezes. para saber o que me aconteceu quando daqui a muitos anos me perguntar: onde raio estava eu com a cabeça? na lua, pois claro. estava com a cabeça na lua. como devem estar todos os que se apaixonam. e é ridícula e tudo. como todas as cartas de amor precisam de ser, diria o poeta*. é uma necessidade.
outro poeta - este não me lembro quem, preciso de ajuda ou vou passar a noite a abrir livros em cima da cama - disse que a poesia nos encontra quando precisamos. porque lemos letra a letra, sílaba a sílaba, o que queremos ou precisamos de ler. queria muito lembrar-me desse poema. assim que me lembre, vai ser o segundo - e para já último - daquele caderno.
o poema que reencontrei ontem é do al berto. foi a primeira coisa que li dele. lembro-me bem. conhecia-lhe o nome e as lombadas e um dia, clandestina num quarto que não era meu, peguei n' "O Medo" e abri ao calhas. saíu-me este na rifa. lembro-me de ter deixado escapar uma lágrima e de o ter escrito rapidamente no caderno novo, o lilás, antes que fosse descoberta a surripiar palavras alheias. não sei que medo seria aquele, mas lembro-me de ser rápida.
penso que o medo d' "O Medo" era este. é que nesse dia, aquelas letras eram eu. o poeta encontrou-me com as palavras, não fui eu que o encontrei. depois disso procurei mais e mais do mesmo. e li e reli. mas nunca mais abri "O Medo". porque assim tudo junto é demais. agora já posso. vou ali à livraria e já volto.
maravilhar-te as insónias
com o paciente crepúsculo da idade
acordar fora do corpo esquecer o olhar
sobre o pêlo ruivo dos animais beber
o fulgor das estrelas no esplendor da alba
nomear-te
para recomeçarmos juntos a vida toda
ensinar-te o segredo dos alquímicos minerais
acender-te um pouco de culpa
na imatura paisagem do coração
eis a travessia que te proponho
amanhecer sem querermos possuir o mundo
e no orvalho da noite saciar o desejo adiado
respirar a música inaudível das galáxias
sentir o tremeluzir da água no medo na boca
o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias.
ontem encontrei um caderno. na realidade não o encontrei porque não estava perdido. eu sabia bem onde estava mas evitava abri-lo há muito, muito tempo. sabia o que lá ia encontrar. na primeira página está, sozinho, sem mais que se lhe sigam, o poema que já ali deixo em baixo. as outras páginas não ficaram em branco porque o papel é lilás. as outras páginas ficaram em lilás. depois deste poema nunca lá escrevi mais nenhum. nem mais nada. nunca soube explicar(-me) porquê.
além do poema escrito no caderno lilás descobri, escondida entre as páginas mais para a frente - e isso sim foi reencontro -, uma carta. que eu própria escrevi e enviei. uma carta de amor, manuscrita, como já não se usa. o papel não é perfumado (caramba, estupidamente romântica mas não pirosa) mas esta também não é a original (e pronto, admito que já perfumei papel em tempos). esta é uma cópia. copiei, à mão, uma carta de amor. penso que nunca o tinha feito e desde então certamente não o fiz porque não escrevi mais cartas de amor. com toda a certeza que a situação na altura exigiu o duplicado. talvez tenha sido um rascunho. talvez tenha sido a necessidade de a ter comigo para reler. para me lembrar do que senti para sempre. como se para sempre coubesse para sempre num pedaço de papel. quando a escrevi não sabia que era uma carta de amor mas quando a reli ontem, na luz fraca que tenho à cabeceira da cama, percebi tudo. outra vez. esta é uma carta para reler muitas vezes. para saber o que me aconteceu quando daqui a muitos anos me perguntar: onde raio estava eu com a cabeça? na lua, pois claro. estava com a cabeça na lua. como devem estar todos os que se apaixonam. e é ridícula e tudo. como todas as cartas de amor precisam de ser, diria o poeta*. é uma necessidade.
outro poeta - este não me lembro quem, preciso de ajuda ou vou passar a noite a abrir livros em cima da cama - disse que a poesia nos encontra quando precisamos. porque lemos letra a letra, sílaba a sílaba, o que queremos ou precisamos de ler. queria muito lembrar-me desse poema. assim que me lembre, vai ser o segundo - e para já último - daquele caderno.
o poema que reencontrei ontem é do al berto. foi a primeira coisa que li dele. lembro-me bem. conhecia-lhe o nome e as lombadas e um dia, clandestina num quarto que não era meu, peguei n' "O Medo" e abri ao calhas. saíu-me este na rifa. lembro-me de ter deixado escapar uma lágrima e de o ter escrito rapidamente no caderno novo, o lilás, antes que fosse descoberta a surripiar palavras alheias. não sei que medo seria aquele, mas lembro-me de ser rápida.
penso que o medo d' "O Medo" era este. é que nesse dia, aquelas letras eram eu. o poeta encontrou-me com as palavras, não fui eu que o encontrei. depois disso procurei mais e mais do mesmo. e li e reli. mas nunca mais abri "O Medo". porque assim tudo junto é demais. agora já posso. vou ali à livraria e já volto.
maravilhar-te as insónias
com o paciente crepúsculo da idade
acordar fora do corpo esquecer o olhar
sobre o pêlo ruivo dos animais beber
o fulgor das estrelas no esplendor da alba
nomear-te
para recomeçarmos juntos a vida toda
ensinar-te o segredo dos alquímicos minerais
acender-te um pouco de culpa
na imatura paisagem do coração
eis a travessia que te proponho
amanhecer sem querermos possuir o mundo
e no orvalho da noite saciar o desejo adiado
respirar a música inaudível das galáxias
sentir o tremeluzir da água no medo na boca
o amor
deve ser esta perseguição de sombras
esta cabeça de mármore decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias.
al berto in O Medo (uma existência de papel, 1984/1985). agora sem medos.
*o outro era álvaro de campos, se é que era preciso dizer.
