quarta-feira, julho 27, 2005

 

m de madame

emilie do châtelet (1706-1749) largou a sua vidinha para viver um grande amor. aos 30 anos, a marquesa deixou filhos, marido, amantes e a vida parisiense para viver com voltaire, em cirey, entre 1735 e 1740. um amor que, segundo ela, só uma alma em cada século - e não duas, como nos contos de fadas! - pode viver: "Um coração capaz de tal um amor, uma alma assim, terna e íntegra, parece ter esgotado o poder da divindade; nasce uma em cada século: parece que produzir duas estaria acima das suas forças, ou que, se as produzisse, teria inveja dos seus prazeres, se se encontrassem;". madame du châtelet teve a capacidade de se permitir viver este amor. mas também a grandeza de o deixar morrer a seu tempo. e depois disso reflectiu sobre o amor, a ilusão a paixão, os gostos, os prazeres e a felicidade em geral.

muito à frente do seu tempo é uma expressão que não começa a descrevê-la. conheço muitas mulheres que poderiam ter escrito tudo isto mas duvido que alguma o pudesse ter feito por aqueles tempos. e os problemas, medos, inseguranças, dilemas, preocupações de uma mulher de 30 há 300 anos atrás não parecem diferir muito dos de hoje. a mim continua a apaixonar-me a paixão. oferereceram-me este pequeno tratado. para me tratar de umas feridas.

m de maravilhoso, m :)

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Para sermos felizes é preciso termo-nos desembaraçado dos preconceitos, sermos virtuosos, gozarmos de boa saúde, termos gostos e paixões, sermos susceptíveis de ter ilusões, pois devemos a maior parte dos nossos prazeres à ilusão e infeliz daquele que a perder.
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É preciso começarmos por dizer a nós próprios e por convencer-nos de que não temos nada mais a fazer neste mundo, para além de nele procurarmos sensações e sentimentos agradáveis. Os moralistas que dizem aos homens "reprimi as vossas paixões e dominai os vossos desejos se desejais ser felizes" não conhecem o caminho para a felicidade. Só somos felizes mediante gostos e paixões satisfatórias; [digo gostos] porque não somos sempre felizes o bastante por termos paixões e porque, à falta de paixões, não resta senão contentarmo-nos com os gostos. Seriam, pois, as paixões o que deveríamos pedir a Deus, se ousássemos pedir-lhe alguma coisa;
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Felizmente que depende apenas de nós fazer antecipar o termo da nossa vida, se este se fizer esperar demasiado; mas desde que nos dispomos a suportá-la, devemos procurar fazer penetrar o prazer por todos os poros que o introduzem até à nossa alma; não temos outras obrigações.
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discurso sobre a felicidade , madame du châtelet
Comments:
Pois, pois. Isto é tudo muito bonito, mas de certeza a senhora que escreveu isso não tinha preocupações da classe média. Como por exemplo: pagar a renda; passar a ferro (ou em alternativa arranjar uma empregada); educar os filhos; um sem mar de coisas. Que não nos tiram o poder de nos iludirmos, mas por certo limitam o tempo disponível.
 
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