quarta-feira, março 09, 2005

 

umbiguite

ter questões de umbigo é saudável. é sinal de que nos preocupamos connosco, de que gostamos de nós e nos pomos, muitas vezes, antes dos outros. como a máxima do leite, se eu não gostar de mim, quem gostará?

mas estar antes dos outros não é forçosamente igual – é mesmo radicalmente diferente – a estar em cima, a atropelar os outros.

há pessoas das quais - porque mais do que o natural umbiguismo ocasional têm uma umbiguite crónica - temos de nos habituar a não esperar muito. são capazes de despejar a alma quando a vida não lhes sorri, mas têm um espaço curto para armazenar e processar males de humor dos outros.

estas pessoas não são pessoas com um umbigo no meio, são umbigos mutantes, gigantes, com uma pessoazinha, um homúnculo, lá enterrado no meio.

em geral, os umbigos são também incapazes de partilhar as coisas boas, as alegrias, os momentos que fazem sorrir. é que os umbigos ignoram por completo que os seus depósitos de mau humor – e eu sou um poço, aparentemente – também ficam contentes com os dias de sol. não servem apenas para chorar em dias nublados.

e quando os umbigos acabam de exorcizar os espíritos que lhes atormentam o dia (ou a noite), partem geralmente sem uma explicação, sem um porquê e invariavelmente sem um “e tu, como estás?”. os umbigos têm sempre tempo para se deitar no divã, mas esquivam-se do seu dever terapêutico. é que eu cá aprendi que nas relações, ao contrário de entre as quatro paredes dos discípulos de freud, ambas as partes são analistas e analisados. e uma relação de amor ou amizade - que são duas faces da mesma moeda, com e sem desejo - não funciona se não for assim. e é tremenda a facilidade com que um umbigo ignora um problema do outro mesmo que seja pior-elevado-a-uma-potência-de-dez do que o seu.

as relações podem até construir-se, mas tenho como quase certo que nascem fadadas à partida pelo tamanho dos umbigos. podem enriquecer-se de proximidade, cumplicidade, mas ou são relações ou não são. porque com um umbigo, raramente se entra em relação. raramente há troca, bilateralidade, parece que os afectos não conseguem comprar bilhete de ida-e-volta. a “relação” com um umbigo é geralmente um beco sem saída.

o problema é que quando gosto de alguém, gosto. é geralmente irremediável e completamente inconsciente. gosto. com os temperamentos, com as idiossincrasias, pacote completo de ego e até de umbigo. por isso tolero algumas umbiguites agudas ou mesmo crónicas. e porque gosto, quero saber como está e o que vai fazer para jantar. mas por vezes o meu próprio umbigo – porque ele existe, naturalmente – queixa-se e sente-se negligenciado. é que era simpático que, de um umbigo para outro, se ouvissem as mesmas perguntas de volta.

esta é uma zanga muito minha, de mim para mim. é que os umbigos só existem porque há outros. os que ouvem, os depósitos de mau humor, os sacos de boxe. o umbigo usa os outros para crescer ainda mais. mas os outros é que verdadeiramente o alimentam. e não devia(m). e a consciência da culpa dos outros (leia-se, da minha) atormenta(-me). e não devia ser preciso passar a ser um umbigo para deixar de estar na categoria dos outros. os outros podem perfeitamente dar o grito do ipiranga e pensar de vez em quando com o próprio umbigo para dizer que “não!” e virar costas, nem que seja - e mais uma vez, a sabedoria publicitária - pela sua saúde.
Comments:
Olá, Cookie
Por falar em umbigos, como está o teu? Nunca mais apareceste...
Um beijo
Daniel
 
este post é quase tal e qual o que me andava a apetecer escrever.

abaixo os umbigos opressores.
 
caramba, apanhei a hora de ponta. nem bem respirei e já comentaram.

abaixo os umbigos opressores, abaixo!
 
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