segunda-feira, janeiro 03, 2005

 

cinco vezes dois são dez

ou claro que isto não quer dizer que as relações que surgem no rescaldo de outras não venham a resultar ou que as relações entre pessoas de narizes e lábios semelhantes não possam falhar

(nem sabia que o blogger censurava títulos GRANDES, não na sua profundidade, mas antes na sua extensão em caracteres)

acabei de ver um filme do qual a minha vida recente não me permite distanciar o suficiente para fazer uma crítica imparcial. cinematográfica, isto é. mas na realidade, eu nunca sou imparcial nas críticas. raramente consigo descolar-me emocionalmente. e será que há críticas imparciais? e objectividade e crítica têm lugar na mesma frase? adiante, adiante, que só isto já dava pano para mangas.

e como disse o meu movie buddy, críticas à parte, se mexeu com as emoções, foi bom.

5x2, o último do françois ozon. conta a história da vida um casal em 5 momentos, narrados cronologicamente, mas ao contrário. começando no fim, o dia em que o divórcio é finalizado, até ao princípio, o dia em que a forma de os dois se olharem se alterou, apesar de já se conhecerem. alguns lugares comuns sobre o princípio e o fim das relações. e o princípio do fim das relações. sobre a fidelidade e para que serve, a rotina, a fuga, a negação da evidência, os erros passados e porque é que esses nunca ajudam ninguém a não ser os próprios e geralmente tarde demais. e considerações nas entrelinhas, sujeitas à leitura distorcida pela vida de cada espectador, sobre porque resultam ou não resultam as relações. e porque acabam. e quando acabam. bem escrito e construído de tal forma que faz pensar. do avesso. ou antes, de trás para a frente.

mas fiquei a matutar numa razão para as relações não resultarem. as relações no rescaldo de outras, no chamado rebound, ou, de forma semelhante, aquelas que precipitam o fim anunciado de outras. a minha teoria – firmemente substanciada por factos e inúmeras novelas da vida real e não só - é de que essas têm poucos pés para andar, raramente resultam. apesar de continuar aqui com problemas de expressão porque ainda não sei dizer (e suspeito nunca vir a saber) o que é uma relação que resulta. mas vale a pena elaborar, ou pelo menos tentar. resultar talvez seja ser bom enquanto dura, mesmo que acabe. até agora, parece-me a teoria mais credível. e bonita. parece-me bonita a imagem de um mundo perfeito onde as relações acabam sem dor e continuam a ser belas para além da sua existência porque foram boas enquanto duraram. e enquanto duraram, eram para sempre. cada dia vivido como se fosse o último. e esses lugares comuns todos em que caímos quando queremos descrever as coisas intensas e não sabemos como. (((tinha tantos parênteses para abrir aqui. fica para outro dia.)))

falava das relações no rescaldo de outras e porque me parece difícil que resultem. quando uma relação acaba, mesmo que tenha sido boa enquanto durou, qualquer pessoa que refresque o horizonte, que traga novidade, que desanuvie a atmosfera de luto pelo que se perdeu ou não se ganhou, será sempre a pessoa mais maravilhosa do mundo. sem defeitos. naquele momento, pelo menos. porque sabe a mel no auge de uma quebra de tensão arterial. tem a força da primeira inspiração depois de uns segundos a mais debaixo de água. renascimento. tem o calor dos raios de sol que aquecem a cara, mesmo no dia mais frio de inverno. conforto. tem a elevação de alguém que morre e subitamente não se lhe encontram tantos defeitos. quando uma relação termina, a seguinte, ou a catalizadora do fim, será sempre uma relação de pedestal elevado, com todos os riscos inerentes, mas ainda assim um nível superior de entendimento que mascara os verdadeiros protagonistas com trajes de estrelas de cinema americano em que tudo acaba sempre bem. mas o cinema é um mundo a fingir e todos sabemos que nem sempre tudo acaba bem.

e com toda a tristeza que conta e reconta, a película em si acabou bem. não o filme, mas a película, com a última cena deixando no (m)ar o princípio implícito daquele amor e o fim do dia no horizonte.

- era uma relação condenada à partida, é cá uma teoria que tenho sobre as relações no rescaldo de outras – disse eu, enquanto pensava nisto tudo em turbilhão. e matutei, que é pensar mexendo com o indicador e o polegar no queixo, como quem quer cofiar uma barba, mas não a tem. a resposta não se fez esperar.
- pensei que ias falar da teoria dos narizes e das bocas.
- dos narizes e das bocas? - por esta altura estava desarmada.
- sim, a teoria de que as relações resultam se os narizes e lábios forem semelhantes.

pronto, afinal é muito mais simples.

e a propósito, lembrei-me de uma letra de uma canção. nem sabia de quem era até procurar para aqui deixar, mas entra no ouvido logo desde o tu-ru-lu electrónico que a introduz. e, sem querer, apercebi-me que tinha esta letra quase na ponta da língua. e logo eu, sardenta.

I am thinking it's a sign
that the freckles in our eyes are mirror images and
when we kiss they're perfectly aligned
And I have to speculate
that God himself did make us into corresponding shapes likepuzzle pieces from the clay
True, it may seem like a stretch,
but it’s thoughts like this that catch my troubled
head when you're away when I am missing you to death
When you are out there on the road for
several weeks of shows and when you scan
the radio, I hope this song will guide you home

They will see us waving from such great heights,
'come down now,' they'll say
But everything looks perfect from far away,
'come down now,' but we'll stay...

I tried my best to leave
this all on your machine but the persistent beat it sounded
thin upon listening
And that frankly will not fly, you will hear
the shrillest highs and lowest lows with
the windows down when this is guiding you home

They will see us waving from such great heights,
'come down now,' they'll say
But everything looks perfect from far away,
'come down now,' but we'll stay...


such great heights dos postal service


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